Concurso de Miss não é só banalidade

Outubro 26, 2006 at 11:13 pm (Cinema)

Pra cinema não há tempo ruim: quem gosta vai mesmo que seja sozinho. Aliás, os melhores filmes que vi foram só e sem pipoca, que tira me demais a atenção e me faz lembrar toda hora que aquela história não é real e que não passa de um espetáculo. Então, pra começar esse blog, o filme que eu vi ontem (sozinho e sem pipoca) e me surpreendeu bastante.Senhoras e senhores, em cartaz:

Pequena Miss Sunshine (Little Miss Sunshine) – 2006

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O que esperar de um cult, com atores desconhecidos, uma história aparentemente bizarra sobre um concurso de beleza infantil e classificado como comédia? Não muito, pelo menos pra mim. Tenho que confessar que entrei na sala com medo de ter jogado minha meia-entrada no lixo, até mesmo porque não gosto de comédias (elas me provocam um sorrisinho amarelo). Mas saí do cinema feliz por ter acertado. Pequena Miss Sunshine é o tipo de filme conduzido pelos ótimos diálogos e pelo carisma e paradoxos de cada um dos personagens. Olive, a Miss Sunshine, e sua família absurda conseguem ser felizes fazendo piada sobre um dos assuntos mais doloridos para qualquer pessoa: o fracasso. O humor negro é tão grande que o único que sabidamente conhece seu fracasso naufraga em sua tentativa suicida e continua vivendo nesse mundo opressor, enquanto o maior fracassado da família (apesar de não ter plena consciência de sua mediocridade) realiza palestras motivacionais com dicas para alcançar o sucesso.
Um road-movie pelas auto-estradas americanas, a trupe cruza o país ora em situações cômicas, ora em momentos de questionamento. Por que nos importamos tanto com a imagem que têm de nós? E, principalmente, como evitar o fracasso, já que mesmo o palestrante que ensina os 9 passos para o sucesso acaba na rua da amargura? Quem procura alguma resposta pra essas questões, não vai achar, quando muito vai se contentar com a referência ao escritor francês Marcel Proust (1871-1922). Segundo o escritor, de nada adianta os anos felizes, uma vez que eles não são lembrados no futuro, enquanto os anos de tristezas e dificuldades são marcantes e mais ricos em ensinamentos. Ou seja: abdicar do sofrimento é abster-se de auto-conhecimento. Embora a tese não resolva muita coisa, ela alivia um pouco essa nossa vida fadada à tragédia.

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