Fragmentos de um discurso rancoroso
Nesse domingo a Folha publicou uma das melhores, maiores e mais inquietantes entrevistas que eu já li. Não sei se pelo momento que estou vivendo, pensando bastante na minha vida no tempo livre que me sobra, ver uma pessoa no alto dos seus 100 anos de idade contar sobre a sua vida de forma tão crua e amarga me deixou impressionado e ainda mais pensativo. Dercy Gonçalves comemora seu centenário sem ter se tornado uma diva do teatro, sem se firmar no Olimpo na comédia nacional. Lógico que sempre estará presente no imaginário popular pela irreverência, pela autenticidade e, claro, pela metralhadora de palavrões que dispara quando abre a boca, mas colocando o pedestal à altura dos nossos olhos, surge a mulher ressentida por trás do mito. Quero ter a longevidade física dela, mas longe da amargura que essa entrevista delineou.
Com vocês, Dercy Gonçalves, o mito. E o bicho acuado que transparece em cada rachadura.
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FOLHA – Você gosta de espelhos [que revestem o teto e a parede do banheiro de seu apartamento]?
DERCY - Gosto, já coloquei em toda a casa, mas hoje não uso mais. Não quero mais nada, não tenho mais vontade de nada.FOLHA – O bingo é um hobby seu?
DERCY – Não. Eu não tenho hobby. Nada me domina, nada me apaixona. Não tenho vício nenhum. Nunca bebi álcool na minha vida.DERCY – [...] Eu nunca fui de sexo, nunca fui mulher sexuada, que ficasse apaixonada. Em primeiro lugar, eu não acredito em sexo. Pela natureza, nós somos feitos de uma matéria ordinária, muito vagabunda, que Ele ia jogar fora, mas decidiu aproveitar para fazer a humanidade. É disso que é feita a humanidade. Se a humanidade é feita disso, nós não somos nada.
FOLHA – Quem são seus amigos?
DERCY – Nenhum, não tenho. Não acredito em amigos. Eu tenho bons conhecidos, em amigos eu não acredito. Porque, se eu pedir dinheiro a algum e não pagar, ele corta relações comigo. Então não é amigo.DERCY – [...] Não existe casamento. É um erro tremendo obrigar um sujeito a se amarrar com o outro só para querer dinheiro. Você não pode amarrar ninguém, a vida tem que ser liberada. Casei porque fiquei com complexo de não ter marido para entrar com minha filha [na igreja] na noite do casamento. Casei por negócio.
FOLHA – Como encara nunca ter recebido um prêmio importante no teatro?
DERCY – Para que eu quero essa merda? Eu não quero, até hoje. Quero dinheiro. Não me dê prêmios, que odeio. Tenho mais de 20 placas, Dercy Gonçalves, o caralho… O que vale é você ter dinheiro para se manter [...].
A la doriana
There was a boy, a very strange enchanted boy. Desde sempre ele achou que tinha alguma coisa diferente com ele. Não era o corte de cabelo, não era mastigar de boca aberta. Ele sentia coisas estranhas por quem ele não deveria sentir nada. Tipo o Atchim, do Atchim & Espirro. Ele não sabia explicar o que acontecia, mas bastava ver aqueles pelinhos que escapavam da roupa de palhaço pra algo mexer com sua cabeça. Como ainda era muito novo pra entender tudo isso, ele deixou passar.Um dia ele cresceu, e como todo mundo que cresce, ele se apaixonou. Pela primeira vez sentia a vontade avassaladora de tocar aquele corpo, de sentir aquela respiração cada vez mais perto. Tudo que ele queria era atenção. Não a atenção de uma pessoa qualquer, a atenção do Rafael. Mesmo sabendo que que as coisas não funcionavam daquele jeito, ele fantasiava que poderia dar certo sim entre os dois, que era só ele contar tudo o que estava sentindo que a recíproca seria verdadeira. Ele lia milhares de livros, de revistas, via todos os programas sobre sexualidade e todo mundo dizia que era só uma fase. Como podia ser só uma fase? Ele sabia que iam ficar juntos, ter um apartamento em São Paulo e uma casa em Angra, onde passariam os finais de semana na presença dos milhares de amigos do Rafa.
O sentimento cresceu e ele resolveu assumir para si mesmo que amava o Rafa. A proximidade só ajudava esse sentimento louco, já que os dois eram grandes amigos e não saíam da casa um do outro. Até que um dia, ao invés de atenção, ele recebeu desprezo. Público! Não bastasse ter sido mal tratado, o tinha sido na frente de todos aqueles amigos que freqüentariam a casa de Angra. Como o Rafa podia fazer isso? Ele nem sabia ainda de todos os planos já havia pra os dois! Foi uma das vezes que ele mais lembra de ter chorado. Como ele chorou naquela noite!!! Não bastasse estar trancado no quarto, no escuro, chorando, ainda tinha a Roxette se esgoelando no meu rádio. It must have been love. Como ele se sentia humilhado! Então, num momento de orgulho ferido, como uma Scarlett O’Hara interiorana, ele jurou que nunca mais choraria por alguém outra vez. Nunca! E assim a adolescência toda passou, a Rose ficou sozinha congelando no meio do Ártico, minha vó e o papa morreram, as Torres Gêmeas viraram uma grande cratera e nenhuma lágrima apareceu.
Por algum motivo, esse bloqueio se desfez no último Ano Novo. Sem explicação, no último dia do ano ele percebeu como sua vida tinha mudado com o final da faculdade, como ele era um homem agora, como ficaria longe das pessoas maravilhosas que tanto o ajudaram a se entender, que o aceitavam mesmo exagerando um pouco no humor negro daquela última piada. E ele chorou! Como ele chorou! Parecia uma criança que acabou de derrubar o pirulito desejado numa poça d’água. Buscando ajuda, foi para a igreja, um lugar que não freqüentava há um bom tempo. A missa começou e ele mal conseguia cantar com o nó que ainda estava na garganta. Ele via o cara pendurado na cruz e tentava entender o que estava acontecendo. E aos poucos ele se controlou. Pelo menos até tocar “Marcas do que se foi”. E lá ia ele de novo…
Depois desse dia ele já perdeu as contas de quantas vezes ele chorou. Colação de grau, show do Robbie Williams no DVD, programa sobre maus tratos aos animais na Record, Troca de Família… A última foi ontem vendo A Corrente do Bem (mas ok, quem não chora com o menininho do Sexto Sentido?).
Diante de tudo isso, ele publicou hoje esse anúncio no jornal: CARA EM ESTADO TERMINAL DE DESIDRATAÇÃO PROCURA URGENTE CARA APAIXONANTE, CAFAJESTE, EGOÍSTA E QUE O HUMILHE EM PÚBLICO PARA AUXILIAR EM TRATAMENTO MÉDICO. PAGA-SE BEM. CHANCE ÚNICA! A PRÓXIMA PODE SER SOMENTE DAQUI A ANOS.
Se você se sensibilizou com essa notícia, passe-a para sua lista de amigos. Conheço esse rapaz. Não precisa ser uma humilhaçãozona, só um palavrão e um murro já estão de bom tamanho. Não que ele esteja reclamando de conseguir exteriorizar os seus sentimentos. Longe disso… Ele só não quer mais exteriorizar vendo o Fábio Assunção clamando pela Alessandra Negrini em “Paraíso Tropical”.
Sorte e Azar (não necessariamente nesta ordem)
Existe uma regrinha muito conhecida por quem já passou por Bauru que divaga que se uma coisa tem a possibilidade de não dar certo, com certeza ela vai dar errado quando você menos esperar e quando tiver pouquíssimo tempo para correr atrás do prejuízo. O que pouca gente sabe é que essa lei traiçoeira costuma se adaptar às neuroses de cada um de nós. Ela engloba os seus piores medos e temores e atua do modo mais assustador possível, produzindo os piores pesadelos que você poderia ter. É assim com a Lei de MurphWill. Sua contribuição à lei tradicional é que ela sempre vai envolver muitas pessoas que dependem de você ou da coisa que você está realizando. Quer uma prova?Não sei se todo mundo já ouvir falar de Intranet. Ela é como uma internet restrita aos usuários de um determinado espaço, como uma empresa, por exemplo. Pois bem. Eu sou um dos responsáveis pela página da Intranet aqui da área de Recursos Humanos dos Correios e com isso eu tenho acesso total à página, podendo publicar informações, despublicá-las, proibir pessoas de acessá-la etc. Todo mundo do interior de São Paulo acessa a página pra pegar modelos de formulários, enviar informações de trabalho, tirar dúvidas sobre procedimentos, enfim, pra tudo relacionado a RH. Essa é o visual da Intranet do Recursos Humanos:
Na sexta-feira eu tirei o dia só pra fazer uma nova subpágina subordinada a home principal com todas as informações da Premiação Destaques do Ano, que a gente realizou no último dia 31 de março com direito a Carmem Miranda, Rick & Renner e cia. Passei o dia inteiro maquinando sobre como seria o layout, quais informações entrariam ou não, um trabalho jornalístico. Depois do almoço, comecei a trabalhar de verdade nela. Uma hora depois, parei pra avaliar o que já tinha feito, odiei e resolvi apagar tudo e recomeçar do zero. Só que por uma das pegadinhas sem graça do MurphWill eu acabei clicando no lugar errado e a página da Intranet de RH ficou assim:
E nunca mais ela foi vista novamente…
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Sábado foi noite de debute: pegamos nossa primeira balada em Jaú. Carro lotado, muito uísque com coca light na cabeça (dos outros, já que praticamente não tomo destilado), meia hora de estrada. Balada muito boa, pelo menos pra mim. Casei duas vezes na balada, um fato inédito! E ainda dizem que o casamento é instituição falida… Tsc tsc tsc
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Quatro da manhã. Música alta. Sexyback. Hora de andar pela pista. Três passos. Troca de olhares de quase cinco minutos e que dura minha caminhada pela pista inteira. Um aceno de “Vem cá”. Um aceno de “Vem cá você”. Ninguém sai do lugar. Eu abro um puta dum sorriso. Passos na minha direção.
- Oi.
- Oi.
- Tudo bom?
- Tudo e você?
- Muito bom, ainda mais agora.
- Qual seu nome?
- Rodrigo.
- Prazer, Will.
(Um sorriso)
- To te olhando há muito tempo, você nem tinha notado.
- Sério? E por que não veio falar comigo?
- Porque você tava cercado de amigos.
- E o que te chamou a atenção?
- Pra começar, esse logo da Skol na sua camiseta. To morrendo de sede e só tem Itaipava nessa balada.
(Outro sorriso)
- Você ta sozinho?
- Estava, até atravessar a pista atrás de você.
- Ah, é? E por que atravessou?
- Pra matar a sede de alguém.
Olhar. Contato físico. Contato íntimo. O melhor beijo da noite. Falta de ar. Até as seis da manhã.
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I don’t wanna rock, DJ
But you’re making me feel so nice
When’s it gonna stop, DJ?
Cause you’re keepin’ me up all night
(Rock DJ – Robbie Williams)