Alpha Romeu
Sábadão Bauru recebeu Romeu & Julieta, com a companhia Mandrágora.

Morria de vontade de ver uma montagem clássica da peça. Um pouco aquém do que eu esperava, mas valeu a pena. Mas:1) Palco pelado – Onde já se viu R&J sem sacada? O palco ficou pelado, só com uma rampa preta de madeira que serviu de tudo: varanda, túmulo, cama, montanha… Decepção.
2) Montagem integral com o texto clássico – Sei do valor de um clássico de Shakespeare e, principalmente, que o texto revela os costumes daquela época. Mas que devia ser um saco conversar naquela época, devia! Frases na ordem indireta, com vocabulário rebuscado e uma verborragia que me estressou em muitos momentos. Pra dizer que ia se matar o Romeu ficou cinco minutos falando, falando, falando e não dizendo nada. Por isso caso um dia monte R&J prometi pra mim mesmo que vou trabalhar o texto pra não chatear o meu público.
3) Atores do naipe Malhação no elenco. No papel da ama ou do padre tudo bem, NUNCA NO DO ROMEU! É completamente absurdo o padre ou a ama serem muito mais interessantes, mais carismáticos e mais talentosos que o Romeu! Como se interessar por uma peça que chama Romeu & Julieta se o Romeu é ridículo? O cara foi péssimo, sem expressão facial/corporal/vocal e ainda quebrou a quarta parede toda hora, não parava de olhar pra platéia. Devia estar procurando a mamãe. Rezei muito pro diretor ter mudado a história, pro Romeu morrer no meio e pra Julieta fugir com a ama.
4) Nu desnecessário – Ok, a Julieta tinha um corpo legal, mas não precisava tirar a roupa. Ela não precisava ter pagado peitinho pra mostrar seu talento. Foi uma cena bonita e bem montada, mas o amor de R&J é muito mais uma instituição do que uma tentação carnal.
Pra completar o fim de semana, ontem assisti Alpha Dog.

O filme de estréia do diretor Nick Cassavetes e com Justin Timberlake no elenco (além de Sharon Stone, Bruce Willis e dezenas de atores desconhecidos) é um grande soco do estômago da juventude. Suas duas horas têm consumo de drogas, sexo, violência e o pior de todos os ingredientes para um indivíduo que está construindo sua identidade: a inconseqüência. Tinha ouvido falar muito bem do desempenho do Justin e os elogios são merecidos. Sou suspeito pra falar dele porque pago pau pro cara, mas não tem como não comprar seu personagem, acreditar na sua ingenuidade e sofrer junto com ele durante as reviravoltas dessa história cruel (e real) sobre um inocente envolvido num duelo de forças em que nem as duas pontas da corda sabem até onde irão pra vencer o cabo de guerra. Quem puder, assista, eu quase chorei no final (apesar disso não significar nada, já que choro vendo o Lata Velha no Caldeirão do Huck rs).
Era uma vez um filme bom…
Era uma vez três pessoas diferentes e suas famílias. A primeira delas é a de um casal americano em crise que viaja para o Marrocos para espairecer e a esposa acaba tomando um tiro e ficando em estado complicado de saúde. A segunda é uma babá mexicana que cuida de duas crianças americanas em San Diego e precisa levá-las consigo para o México para não perder o casamento de seu único filho. A terceira é uma adolescente japonesa surda-muda em busca de alguém que lhe dê atenção e com quem ela possa perder a virgindade. O que essas três histórias têm em comum? Falando assim, absolutamente nada! Mas no filme Babel, do diretor mexicano Alejandro González Iñárritu, um dos fortes concorrentes ao Oscar deste ano, os destinos dessas três famílias se entrelaçam e caminham juntos para a tragédia.
Nem a abertura da A Indomada nem a Regina Casé em Eu, Tu, Eles.
É o deserto de Babel mesmo…
Não vou entrar nos detalhes sobre como os fatos se sucedem na película mas, repetindo aqui o argumento que a revista VEJA lançou, as três histórias são tão ricas e interessantes que poderiam muito bem serem protagonistas de filmes distintos, até mesmo porque em alguns momentos os mecanismos para unir as três histórias soam absurdamente forçados e desnecessários. Do jeito como são trabalhados, ficamos sempre decepcionados, com expectativas constantemente construídas mas dificilmente supridas e muitas perguntas sem resposta. Exemplos (se ainda não viu o filme, não leia o resto deste parágrafo): o que aconteceu com as crianças americanas quando ficaram sozinhas no deserto? O que estava escrito no bilhete que a moça japonesa deu ao policial? O que aconteceu ao menino marroquinho e seu pai após serem presos pela polícia? Onde foi parar o sobrinho da babá mexicana e por que ele não voltou para buscá-la no deserto?Com temática muito semelhante à dos dois filmes anteriores de Iñárritu, Amores Brutos e 21 Gramas, Babel, no entanto, acaba decepcionando em função desses vários buracos sem resposta. Particularmente, considero Amores Brutos o melhor dos três. Aqui, as histórias dos três personagens conseguem ser desenvolvidas de uma maneira satisfatória, sem lacunas ou malabarismos no entrelaçamento dos destinos e com ritmo extasiante e uma não-linearidade intrigante, na medida certa (algo que 21 Gramas levou ao extremo e muitas vezes dificulta a localização da cena no passado, presente ou futuro quando da reconstrução do quebra-cabeça).

Onde será que ela vez esse nariz?
Apesar de ser um dos grandes favoritos, não acho que será o ganhador do Oscar (que, na minha opinião, deve ser entregue a Os Infiltrados). Mas Babel é um filme que merece ser visto pelas belas cenas e pelos diferentes sentimentos que desperta no espectador durante os mais de 120 minutos de projeção.P.S.: O acidente com o casal de americanos é causado por dois irmãos marroquinhos que, irresponsavelmente, treinam pontaria nas montanhas e acabam pegando o ônibus dos turista como alvo. Depois de tanta polêmica com o filme Turistas, que, especulavam, faria uma péssima propaganda do Brasil no exterior, Babel faz exatamente o mesmo, retratando o país africano como um lugar em que os moradores atiram nos veículos que passam calmamente pelas estradas. Ainda não ouvi ninguém criticar Babel por isso. Ah, esqueci, Babel é um filme sério, então pode…
Concurso de Miss não é só banalidade
Pra cinema não há tempo ruim: quem gosta vai mesmo que seja sozinho. Aliás, os melhores filmes que vi foram só e sem pipoca, que tira me demais a atenção e me faz lembrar toda hora que aquela história não é real e que não passa de um espetáculo. Então, pra começar esse blog, o filme que eu vi ontem (sozinho e sem pipoca) e me surpreendeu bastante.Senhoras e senhores, em cartaz:
Pequena Miss Sunshine (Little Miss Sunshine) – 2006
O que esperar de um cult, com atores desconhecidos, uma história aparentemente bizarra sobre um concurso de beleza infantil e classificado como comédia? Não muito, pelo menos pra mim. Tenho que confessar que entrei na sala com medo de ter jogado minha meia-entrada no lixo, até mesmo porque não gosto de comédias (elas me provocam um sorrisinho amarelo). Mas saí do cinema feliz por ter acertado. Pequena Miss Sunshine é o tipo de filme conduzido pelos ótimos diálogos e pelo carisma e paradoxos de cada um dos personagens. Olive, a Miss Sunshine, e sua família absurda conseguem ser felizes fazendo piada sobre um dos assuntos mais doloridos para qualquer pessoa: o fracasso. O humor negro é tão grande que o único que sabidamente conhece seu fracasso naufraga em sua tentativa suicida e continua vivendo nesse mundo opressor, enquanto o maior fracassado da família (apesar de não ter plena consciência de sua mediocridade) realiza palestras motivacionais com dicas para alcançar o sucesso.Um road-movie pelas auto-estradas americanas, a trupe cruza o país ora em situações cômicas, ora em momentos de questionamento. Por que nos importamos tanto com a imagem que têm de nós? E, principalmente, como evitar o fracasso, já que mesmo o palestrante que ensina os 9 passos para o sucesso acaba na rua da amargura? Quem procura alguma resposta pra essas questões, não vai achar, quando muito vai se contentar com a referência ao escritor francês Marcel Proust (1871-1922). Segundo o escritor, de nada adianta os anos felizes, uma vez que eles não são lembrados no futuro, enquanto os anos de tristezas e dificuldades são marcantes e mais ricos em ensinamentos. Ou seja: abdicar do sofrimento é abster-se de auto-conhecimento. Embora a tese não resolva muita coisa, ela alivia um pouco essa nossa vida fadada à tragédia.
