Podólatra
Em um dia de muito sol, ele olhava para os lados tentando entender como tinha ido parar naquele lugar. Música lounge, ambiente dividido por altas e grandes colunas gregas, aparadores lotados de chá, biscotinhos, patês excêntricos (mas igualmente sofisticados), mesas forradas com xícaras matematicamente colocadas para construir uma distribuição simétrica e perfeita. No meio do salão, uma grande passarela branca a um metro do chão, forrada de branco, com forte iluminação e telões nas duas l telões nas duas laterais para exibição simultânea.
Ele era um verdadeiro estranho no paraíso. Nunca tinha freqüentado um evento da elite como aquele, com a presença ilustre da mais alta nata da sociedade. Velhinhas, tudo bem, mas ainda sim parte importante da classe que realmente manda na cidade. Gente que sabe usar cada um dos talheres colocados sobre a mesa, que coloca elegantemente o guardanapo sobre o colo antes de se servir e que toma uma xícara de chá com a leveza e rigidez que a etiqueta pede. E ele ali, sem nem sabe como colocar aquela torrada no prato sem que as newpsies (as dondocas) reparem que ele não possui um pingo de classe.
De repente tudo escurece, a passarela se ilumina e começa o desfile beneficente. Modelos e mais modelos, de um lado a outro, com flashes concorrendo com a iluminação das treliças. É quando ele percebe, por entre as pernas de uma das modelos que abandonava a passarela, um olhar constante em sua direção. De prima, ele pensa: “Ah, sem querer, até parece!”. Mas quando a segunda modelo deixa a passarela ele reconhece, por entre o vão das suas longas e escuras, pernas, que aqueles olhares são para ele mesmo. E começa e encarar também, a retribuir. Um olhar, um olhar. Uma fixação, uma fixação. Um desvio, um desvio. Outro olhar, outro olhar. Um sorriso, um sorriso. Começa a tocar “Like a Virgin”. E, olhando fixamente, ele só se deleita com aquele cara do outro lado que, com a barba para fazer e um estilo que há muito tempo ele vem tentando copiar, canta aquela música palavra por palavra para ele como se fosse uma serenata. E toca “Jump”. Enquanto tenta reproduzir o mais próximo da perfeição cada sussurro da Madonna, os lábios daquele outro cara se movem de um modo que nosso estranho no paraíso só consegue pensar em como seria se não houvesse tanta gente por perto. Bastou uma provocação alheia e aquele último olhar devorador e ele entregou os pontos, baixou os olhos e se sentiu, pela primeira vez, como uma virgem, sem coragem de focá-lo novamente.
Get ready to jump
Don’t ever look back, oh baby,
Yes, I’m ready to jump
Just take my hands
Get ready to jump
(Jump – Madonna)
Sorte e Azar (não necessariamente nesta ordem)
Existe uma regrinha muito conhecida por quem já passou por Bauru que divaga que se uma coisa tem a possibilidade de não dar certo, com certeza ela vai dar errado quando você menos esperar e quando tiver pouquíssimo tempo para correr atrás do prejuízo. O que pouca gente sabe é que essa lei traiçoeira costuma se adaptar às neuroses de cada um de nós. Ela engloba os seus piores medos e temores e atua do modo mais assustador possível, produzindo os piores pesadelos que você poderia ter. É assim com a Lei de MurphWill. Sua contribuição à lei tradicional é que ela sempre vai envolver muitas pessoas que dependem de você ou da coisa que você está realizando. Quer uma prova?Não sei se todo mundo já ouvir falar de Intranet. Ela é como uma internet restrita aos usuários de um determinado espaço, como uma empresa, por exemplo. Pois bem. Eu sou um dos responsáveis pela página da Intranet aqui da área de Recursos Humanos dos Correios e com isso eu tenho acesso total à página, podendo publicar informações, despublicá-las, proibir pessoas de acessá-la etc. Todo mundo do interior de São Paulo acessa a página pra pegar modelos de formulários, enviar informações de trabalho, tirar dúvidas sobre procedimentos, enfim, pra tudo relacionado a RH. Essa é o visual da Intranet do Recursos Humanos:
Na sexta-feira eu tirei o dia só pra fazer uma nova subpágina subordinada a home principal com todas as informações da Premiação Destaques do Ano, que a gente realizou no último dia 31 de março com direito a Carmem Miranda, Rick & Renner e cia. Passei o dia inteiro maquinando sobre como seria o layout, quais informações entrariam ou não, um trabalho jornalístico. Depois do almoço, comecei a trabalhar de verdade nela. Uma hora depois, parei pra avaliar o que já tinha feito, odiei e resolvi apagar tudo e recomeçar do zero. Só que por uma das pegadinhas sem graça do MurphWill eu acabei clicando no lugar errado e a página da Intranet de RH ficou assim:
E nunca mais ela foi vista novamente…
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Sábado foi noite de debute: pegamos nossa primeira balada em Jaú. Carro lotado, muito uísque com coca light na cabeça (dos outros, já que praticamente não tomo destilado), meia hora de estrada. Balada muito boa, pelo menos pra mim. Casei duas vezes na balada, um fato inédito! E ainda dizem que o casamento é instituição falida… Tsc tsc tsc
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Quatro da manhã. Música alta. Sexyback. Hora de andar pela pista. Três passos. Troca de olhares de quase cinco minutos e que dura minha caminhada pela pista inteira. Um aceno de “Vem cá”. Um aceno de “Vem cá você”. Ninguém sai do lugar. Eu abro um puta dum sorriso. Passos na minha direção.
- Oi.
- Oi.
- Tudo bom?
- Tudo e você?
- Muito bom, ainda mais agora.
- Qual seu nome?
- Rodrigo.
- Prazer, Will.
(Um sorriso)
- To te olhando há muito tempo, você nem tinha notado.
- Sério? E por que não veio falar comigo?
- Porque você tava cercado de amigos.
- E o que te chamou a atenção?
- Pra começar, esse logo da Skol na sua camiseta. To morrendo de sede e só tem Itaipava nessa balada.
(Outro sorriso)
- Você ta sozinho?
- Estava, até atravessar a pista atrás de você.
- Ah, é? E por que atravessou?
- Pra matar a sede de alguém.
Olhar. Contato físico. Contato íntimo. O melhor beijo da noite. Falta de ar. Até as seis da manhã.
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I don’t wanna rock, DJ
But you’re making me feel so nice
When’s it gonna stop, DJ?
Cause you’re keepin’ me up all night
(Rock DJ – Robbie Williams)